Terceiro diálogo - O padre
Um abade. — Permitir-me-eis, senhor, dirigir-vos, por minha vez, algumas perguntas?
A. K. — De boa mente, reverendo; mas, antes de responder a elas, creio útil fazer-vos conhecer o terreno em que me devo colocar perante vós.
Primeiro que tudo, cumpre-me declarar que não tenho a pretensão de vos converter às nossas ideias. Se desejardes conhecê-las pormenorizadamente, encontrá-las-eis nos livros em que estão expostas; neles podereis estudá-las à vontade e aceitá-las ou rejeitá-las.
O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas consequências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura; ele se dirige, pois, àqueles que em nada creem ou que duvidam , e o número desses não é pequeno, como muito bem sabeis; os que têm fé religiosa, e a quem esta fé satisfaz , dele não têm necessidade.
Àquele que diz: “Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos, sem nada buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção.
A liberdade de consciência é consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem; e o Espiritismo, se não a respeitasse, estaria em contradição com os seus princípios de liberdade e tolerância.
A seus olhos, toda crença, quando sincera e não permita ao homem fazer mal ao próximo, é respeitável, mesmo que seja errônea.
Se alguém fosse por sua consciência arrastado a crer, por exemplo, que é o Sol que gira ao redor da Terra, nós lhe diríamos: “Acreditai-o se quiserdes, porque isso não fará que esses dois astros troquem os seus papéis”; mas, assim como não procuramos violentar-vos a consciência, respeitai também a nossa.
Se transformardes, porém, uma crença, de si mesma inocente, em instrumento de perseguição, ela então se tornará nociva e pode ser combatida.
Tal é, senhor abade, a linha de conduta que tenho seguido com os ministros dos diversos cultos que a mim se hão dirigido. Quando eles me interpelaram sobre alguns pontos da Doutrina, dei-lhes as explicações necessárias, abstendo-me de discutir certos dogmas de que o Espiritismo não se quer ocupar, por serem todos os homens livres em suas apreciações; nunca, porém, fui procurá-los no propósito de lhes abalar a fé por meio de qualquer pressão.
Àquele que nos procura como irmão, nós o acolhemos como tal; ao que nos repele, deixamo-lo em paz. É o conselho que não tenho cessado de dar aos espíritas, porque não concordo com os que se arrogam a missão de converter o clero. Sempre lhes tenho dito: Semeai no campo dos incrédulos, onde há colheita a fazer.
O Espiritismo não se impõe, porque, como vo-lo disse — respeita a liberdade de consciência; ele sabe também que toda crença imposta é superficial e não desperta senão as aparências da fé; nunca, porém, a fé sincera. Ele expõe seus princípios aos olhos de todos, de modo a cada um poder formar opinião segura.
Os que lhe aceitam os princípios, sacerdotes ou leigos, o fazem livremente e por achá-los racionais; mas nós não ficamos querendo mal aos que se afastam da nossa opinião. Se hoje há luta entre a Igreja e o Espiritismo, nós temos consciência de não havê-la provocado.
Padre. — Se a Igreja, vendo levantar-se uma nova doutrina, cujos princípios, em consciência, julga dever condenar, podeis contestar-lhe o direito de discuti-los e combatê-los, premunindo os fiéis contra o que ela considera erro?
A. K. — De modo algum podemos contestar esse direito, que também reclamamos para nós outros.
Se ela se houvesse encerrado nos limites da discussão, nada haveria de melhor; lede, porém, a maioria dos discursos proferidos por seus membros e publicados em nome da religião, os sermões que têm sido pregados, e vereis neles a injúria e a calúnia transbordando por toda parte e os princípios da doutrina sempre indigna e perversamente desfigurados.
Do alto do púlpito, não temos sido — os espíritas — qualificados de inimigos da sociedade e da ordem pública, não temos sido anatematizados e rejeitados pela Igreja, sob o pretexto de que é melhor ser incrédulo do que crer em Deus e na alma pelos ensinos do Espiritismo?
Não lamentam muitos, hoje, não se poder atear para os espíritas as fogueiras da Inquisição?
Em certas localidades não têm sido assinalados à animadversão de seus concidadãos, a ponto de fazer que sejam nas ruas perseguidos e injuriados?
Não se tem imposto a todos os fiéis que os evitem como pestíferos, e impedido que os criados entrem a seu serviço?
Muitas mulheres não têm sido aconselhadas a separarem-se de seus maridos, como muitos maridos de suas mulheres, tudo por causa do Espiritismo?
Não se têm tirado lugares a empregados, retirado o pão do trabalho a operários e recusado caridade aos necessitados, por serem eles espíritas?
Não se têm despedido de alguns hospitais, até cegos, pelo fato de não quererem abjurar sua crença?
Dizei-me, senhor abade, será isso uma discussão leal?
Os espíritas responderam, porventura, à injúria com a injúria, ao mal com o mal?
Não. A tudo opuseram eles sempre a calma e a moderação. A consciência pública já lhes faz a justiça de reconhecer não terem sido eles os agressores.
Padre. — Todo homem sensato deplora esses excessos; mas a Igreja não pode ser responsável pelos abusos cometidos por alguns de seus membros pouco esclarecidos.
Allan Kardec — O Que é o Espiritismo