A religião encontra, pois, um apoio nele, não para as pessoas de vistas estreitas, que a veem integralmente na doutrina do fogo eterno, na letra mais que no espírito, mas para aqueles que a veem segundo a grandeza e a majestade de Deus.
Em uma palavra, o Espiritismo engrandece e eleva as ideias; combate os abusos engendrados pelo egoísmo, a cobiça, a ambição; mas quem terá a coragem de defendê-los e se declararem seus campeões? Se ele não é indispensável à salvação, facilita-a firmando-nos no caminho do bem. Além disso, que homem sensato ousará avançar que a falta de ortodoxia é mais repreensível, aos olhos de Deus, que o ateísmo ou o materialismo?
Apresento claramente as questões seguintes, a quantos combatem o Espiritismo, sob o ponto de vista de suas consequências religiosas:
1ª Quem terá melhor quinhão na vida futura — aquele que não crê em coisa alguma, ou aquele que, crente das verdades gerais, não admite certas partes do dogma?
2ª O protestante e o cismático serão confundidos na mesma reprovação que o ateu e o materialista?
3ª O que não é ortodoxo, no rigor da palavra, mas faz o bem que pode, que é bom e indulgente para com o próximo, leal em suas relações sociais, deve contar menos com a salvação, do que aquele que crê em tudo, mas é duro, egoísta e baldo de caridade?
4ª Qual terá mais valor aos olhos de Deus: a prática das virtudes cristãs sem a dos deveres da ortodoxia, ou a destes últimos sem a da moral?
Respondi, senhor abade, às questões e objeções que me dirigistes, mas, como vo-lo disse no começo, sem intenção alguma preconcebida de conduzir-vos às nossas ideias e de mudar as vossas convicções, limitando-me tão somente a fazer-vos encarar o Espiritismo sob seu verdadeiro aspecto. Se não tivésseis vindo, eu não vos teria ido procurar.
Não quer isto dizer que desprezássemos a vossa adesão aos nossos princípios, caso ela se verificasse; longe disso; julgamo-nos sempre felizes pelas aquisições que fazemos, as quais têm para nós tanto maior valor quanto mais livres e voluntárias são. Não só não temos o direito de exercer constrangimento sobre quem quer que seja, como também sentiríamos escrúpulo em ir perturbar a consciência dos que, tendo crenças que os satisfazem, não venham espontaneamente ao nosso encontro.
Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem sobre o Espiritismo é estudarem previamente a teoria; os fatos virão depois, naturalmente, e serão facilmente compreendidos, qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias os façam vir. As nossas publicações são feitas no intuito de favorecer esse estudo; eis aqui a ordem que aconselhamos.
A primeira leitura a fazer-se é a deste resumo, que apresenta o conjunto e os pontos mais salientes da ciência; com isso, pois, já se pode fazer dela uma ideia e ficar-se convencido de que, no fundo, existe algo de sério. Nesta rápida exposição esforçamo-nos por indicar os pontos sobre que particularmente se deve fixar a atenção do observador. A ignorância dos princípios fundamentais é a causa das falsas apreciações da maioria daqueles que querem julgar o que não compreendem, ou que se baseiam em ideias preconcebidas.
Se desta leitura nascer o desejo de continuar, deve-se ler O Livro dos Espíritos , onde os princípios da doutrina estão completamente desenvolvidos; depois, O Livro dos Médiuns , para a parte experimental, destinado a servir de guia aos que desejarem operar por si mesmos, como aos que quiserem bem compreender os fenômenos. Vêm depois as diversas obras onde são desenvolvidas as aplicações e as consequências da doutrina, como: O Evangelho segundo o Espiritismo , O Céu e o Inferno segundo o Espiritismo , etc.
A Revista espírita é, de certa forma, um curso de aplicações, pelos numerosos exemplos e desenvolvimentos que encerra, tanto sobre a parte teórica, quanto sobre a parte experimental.
Às pessoas sérias que tiverem feito um estudo preparatório, nós teremos prazer em dar verbalmente as explicações necessárias sobre os pontos que não tiverem compreendido suficientemente.
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¹ Vede O Livro dos Espíritos , n. 166 e seg., 222 e seg. e 1.010; A moral do Evangelho , caps. IV e V.
² Vede A pluralidade das existências da alma , por Pezzani.
Allan Kardec — O Que é o Espiritismo