A. K. — Convenho; mas, entrarão na classe dos pouco esclarecidos os príncipes da Igreja?
Vede a pastoral do bispo de Argel e de alguns outros.
Não foi um bispo quem ordenou o auto-de-fé de Barcelona?
A autoridade superior eclesiástica não tem todo o poder sobre os seus subordinados?
Se ela tolera esses sermões indignos da cadeira evangélica; se ela patrocina a publicação de escritos injuriosos e difamatórios contra uma classe inteira de cidadãos, e se não se opõe às perseguições exercidas em nome da religião, é porque as aprova.
Em resumo, a Igreja, repelindo sistematicamente os espíritas que a buscavam, forçou-os a retroceder; pela natureza e violência dos seus ataques ela ampliou a discussão e conduziu-a para um terreno novo. O Espiritismo era apenas uma simples doutrina filosófica; foi a Igreja quem lhe deu maiores proporções, apresentando-o como inimigo formidável; foi ela, enfim, quem o proclamou nova religião. Foi um passo errado, mas a paixão não raciocina melhor.
Um livre pensador. — Há pouco proclamastes a liberdade de pensamento e de consciência, e declarastes que toda crença sincera é respeitável. O materialismo é uma crença como outra qualquer; por que negar-lhe a liberdade que concedeis a todas as outras?
A. K. — Cada um é, certamente, livre de crer no que quiser ou de não crer em coisa alguma; e não toleraríamos mais uma perseguição contra aquele que acredita no nada depois da morte, assim como na promovida contra um cismático de qualquer religião.
Combatendo o materialismo, não atacamos os indivíduos, mas sim uma doutrina que, se é inofensiva para a sociedade, quando se encerra no foro íntimo da consciência de pessoas esclarecidas, é uma chaga social, se vier a generalizar-se.
A crença de tudo acabar para o homem depois da morte, que toda solidariedade cessa com a extinção da vida corporal, leva-o a considerar como um disparate o sacrifício do seu bem-estar presente, em proveito de outrem; donde a máxima: “Cada um por si durante a vida terrena, porque com ela tudo se acaba.”
A caridade, a fraternidade, a moral, em suma, ficam sem base alguma, sem nenhuma razão de ser. Para que nos molestarmos, nos constrangermos e nos sujeitarmos a privações hoje, quando amanhã, talvez, já nada sejamos?
A negação do futuro, a simples dúvida sobre outra vida, são os maiores estimulantes do egoísmo, origem da maioria dos males da humanidade. É necessário possuir alta dose de virtude para não seguir a corrente do vício e do crime, quando para isso não se tem outro freio além do da própria força de vontade.
O respeito humano pode conter o homem do mundo, mas não contém aquele que não dá importância à opinião pública.
A crença na vida futura, mostrando a perpetuidade das relações entre os homens, estabelece entre eles uma solidariedade que não se quebra na tumba; desse modo, essa crença muda o curso das ideias. Se essa crença fosse um simples espantalho, não duraria senão um tempo curto; mas, como a sua realidade é fato adquirido pela experiência, é um dever propagá-la e combater a crença contrária, mesmo no interesse da ordem social. É o que faz o Espiritismo; e o faz com êxito, porque fornece provas, e porque, decididamente, o homem antes quer ter a certeza de viver e poder ser feliz em um mundo melhor, para compensação das misérias deste mundo, do que a de morrer para sempre. O pensamento de ser aniquilado, de ver os filhos e os entes que lhe são mais caros perdidos, sem remissão, sorri a um bem limitado número, acreditai-me; é o motivo do tão pequeno êxito obtido pelos ataques dirigidos contra o Espiritismo, em nome da incredulidade, os quais não lhe produziram o menor abalo.
Padre. — A religião ensina tudo isso; até agora foi suficiente; qual é hoje a necessidade de uma nova doutrina?
A. K. — Se a religião ensina o bastante, por que há tantos incrédulos, religiosamente falando?
Ela prega, é verdade; ela nos manda crer, mas há muita gente que não crê por simples afirmação. O Espiritismo prova e faz ver o que a religião ensina em teoria. Além disso, donde vêm essas provas? Da manifestação dos Espíritos.
Ora, é provável que os Espíritos só se manifestem com o consentimento de Deus; se, pois, Deus em sua misericórdia envia aos homens esse socorro para afastá-los da incredulidade, é uma impiedade repeli-lo.
Padre. — Não podeis, entretanto, contestar que o Espiritismo não está, em todos os pontos, de acordo com a religião.
A. K. — Ora, senhor abade, todas as religiões dirão a mesma coisa: os protestantes, os judeus, os muçulmanos, tanto quanto os católicos.
Se o Espiritismo negasse a existência de Deus, da alma, da sua individualidade e imortalidade, das penas e recompensas futuras, do livre-arbítrio do homem; se ele ensinasse que cada um só deve viver para si, não pensar senão em si, não só seria contrário à religião católica, como a todas as religiões do mundo; ele seria ainda a negação de todas as leis morais, base das sociedades humanas.
Longe disso: os Espíritos proclamam um Deus único, soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito; colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito.
Allan Kardec — O Que é o Espiritismo