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Terceiro diálogo. — O padre. (parte 4 de 10)

A. K. — Há dois pontos a considerar nas religiões: os princípios gerais, comuns a todas, e os princípios particulares de cada uma delas. Os primeiros são os de que falamos há pouco; estes são proclamados por todos os Espíritos, qualquer que seja a sua classe. Quanto aos segundos, os Espíritos vulgares, sem ser maus, podem ter preferências, opiniões; podem preconizar esta ou aquela forma, animar certas práticas, seja por convicção pessoal, seja porque conservaram as ideias da vida terrena, seja por prudência, para não assustar as consciências timoratas.

Acreditais, por exemplo, que um Espírito esclarecido, fosse mesmo Fénelon, dirigindo-se a um muçulmano, irá inabilmente dizer-lhe que Maomé é um impostor, e que ele será condenado se não se fizer cristão?

Não o fará, porque seria repelido.

Em geral, os Espíritos superiores, se a isso não são solicitados por alguma consideração especial, não se preocupam com essas questões de minúcia; eles se limitam a dizer: Deus é bom e justo; não quer senão o bem; a melhor de todas as religiões é aquela que só ensina o que é conforme à bondade e justiça de Deus; que dá de Deus a maior e a mais sublime ideia e não o rebaixa emprestando-lhe as fraquezas e as paixões da humanidade; que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a amarem-se todos como irmãos; que condena todo mal feito ao próximo; que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja; que nada prescreve de contrário às leis imutáveis da natureza, porque Deus não se pode contradizer; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade, caridade e moralidade; aquela que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens; aquela, finalmente, em nome da qual se comete menos mal, porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal; ela não lhe deve deixar porta alguma aberta, nem diretamente, nem por interpretação. Vede, julgai e escolhei.

Padre. — Creio que certos pontos da doutrina católica são contestados pelos Espíritos que considerais superiores; supondo mesmo que esses princípios sejam errôneos, poderá tal crença, segundo a opinião dos ditos Espíritos, ser prejudicial à salvação daqueles que, errando ou acertando, a consideram artigo de fé e a praticam?

A. K. — Certamente que não, se ela os não desviar da prática do bem, se ela antes os incitar a isso; ao passo que a mais bem fundada crença os prejudicará evidentemente, se lhes fornecer ocasião de fazer o mal, de faltar à caridade com o próximo, se ela os tornar duros e egoístas, por que então não praticam segundo a lei de Deus, e Deus olha mais os pensamentos que os atos. Quem poderá sustentar o contrário?

Acreditais, por exemplo, que a fé possa ser proveitosa a um homem que, crendo perfeitamente em Deus, pratique atos inumanos ou contrários à caridade? Não haverá sempre mais culpa naquele que mais meios tinha de esclarecimento?

Padre. — Assim, o católico fervoroso, que escrupulosamente cumpre com os deveres do seu culto, não é censurado pelos Espíritos?

A. K. — Não, se isso é para ele uma questão de consciência, se ele o faz com sinceridade; sim, mil vezes sim, se for hipócrita, se só tiver piedade aparente.

Os Espíritos superiores, os encarregados do progresso da humanidade, declararam-se contra todos os abusos que podem retardar esse progresso, qualquer que seja a natureza deles e quaisquer que sejam os indivíduos ou as classes que deles se aproveitem.

Ora, não se pode negar que a religião nem sempre esteve isenta de abusos; se, entre os seus ministros, há muitos que desempenham sua missão com devotamento inteiramente cristão, que a fazem grande, bela e respeitável, convireis que nem todos assim sempre compreenderam a santidade do seu ministério. Os Espíritos combatem o mal, onde quer que ele se ache; mas, assinalar os abusos da religião será atacá-la?

Ela não tem inimigos piores que aqueles que defendem esses abusos, abusos que fazem nascer o pensamento de poder ser ela substituída por outra melhor. Se a religião corresse qualquer perigo, deveria a responsabilidade cair sobre os que dão dela falsa ideia, transformando-a em arena de paixões humanas e explorando-a em proveito de sua ambição.

Padre. — Dissestes que o Espiritismo não discute os dogmas, e, entretanto, ele admite certos pontos combatidos pela Igreja, tais como, por exemplo, a reencarnação, a aparição do homem na Terra antes de Adão; nega a eternidade das penas, a existência dos demônios, o purgatório e o fogo do inferno.

A. K. — Já de há muito que esses pontos estão sendo discutidos; não foi o Espiritismo quem os pôs em litígio; são pontos sobre alguns dos quais há controvérsia, mesmo entre os teólogos, e que só o futuro julgará. Um grande princípio domina a todos: a prática do bem, que é a lei superior, a condição sine qua non do nosso futuro, como no-lo prova o estado dos Espíritos que conosco se comunicam.

Enquanto a luz não se faz para vós sobre essas questões, crede, se o quiserdes, nas chamas e torturas materiais, se julgais que isso impede que pratiqueis o mal; essa crença, porém, não as tornará mais reais se elas não existirem.

Allan Kardec — O Que é o Espiritismo