1. Recursos
  2. Livros
  3. O Que é o Espiritismo
  4. Terceiro diálogo. — O padre. (parte 7 de 10)

Terceiro diálogo. — O padre. (parte 7 de 10)

Devemos mesmo notar que, de todas as religiões, é a judaica a que faz menos oposição ao Espiritismo, contra cujas evocações ela não invocou a lei de Moisés, em que se apoiam as seitas cristãs. Se as prescrições bíblicas são o código da fé cristã, por que proíbem a leitura da Bíblia? Que diriam se se proibisse a um cidadão o estudo do código das leis do seu país?

A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser, porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do Egito, e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos.

Não se evocava então os mortos pelo respeito e afeição tributados a eles, nem com o sentimento de piedade, mas, sim, como meio de adivinhar, como objeto de tráfico vergonhoso, explorado pelo charlatanismo e pela superstição; nessas condições, Moisés teve razão de proibi-lo. Se ele pronunciou contra esse abuso uma penalidade severa, é que eram precisos meios rigorosos para conter esse povo indisciplinado; também quanto à pena de morte, era pródiga a sua legislação.

É, pois, um erro apoiar-se na severidade do castigo para provar-se o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Se a interdição da evocação aos mortos vem do próprio Deus, como a Igreja pretende, deve também ser Deus quem marcou a pena de morte contra os delinquentes. Esta pena passa a ter uma origem tão sagrada como a interdição; neste caso, por que não a conservam também? Todas as leis de Moisés são promulgadas em nome e por ordem de Deus; se creem que Deus seja o autor delas, por que não as observam ainda? Se a lei de Moisés é para a Igreja um artigo de fé sobre um ponto, por que deixa de sê-lo sobre os outros todos? Por que recorrem a ela naquilo de que precisam, e repelem-na no que não julgam conveniente? Qual o motivo de não seguirem todas as suas prescrições, entre outras a da circuncisão, a que Jesus se sujeitou e que não aboliu?

Havia na lei moisaica duas partes: 1ª, a lei de Deus, resumida nas tábuas do Sinai; lei que foi conservada porque é divina, e o Cristo não fez mais que desenvolvê-la; 2ª, a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes do tempo, e que o Cristo aboliu. Hoje as circunstâncias são outras, e a proibição de Moisés já não tem razão de ser. Além disso, se a Igreja proíbe a evocação dos Espíritos, poderá também impedir que eles venham sem ser chamados? Não estamos vendo diariamente manifestações de todos os gêneros, entre pessoas que nunca se ocuparam com o Espiritismo? e antes de ele ser divulgado não se davam tantas delas?

Outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os Espíritos dos mortos, é uma prova de que eles podem vir; do contrário essa interdição seria inútil. Se, em seu tempo, podiam eles entrar em relação com os homens, ainda hoje o podem, e, se são Espíritos de mortos, não são exclusivamente demônios. Antes de tudo, devemos ser lógicos.

Padre. — A Igreja não nega que bons Espíritos possam comunicar-se, pois reconhece que os santos também se têm manifestado; ela, porém, não considera bons aqueles que vêm contradizer seus princípios imutáveis. Os Espíritos ensinam, é verdade, que há penas e recompensas futuras, porém, de modo diverso do que ela ensina; só ela pode julgar o que eles pregam e, portanto, distinguir os bons dos maus.

A. K. — Eis a magna questão. Galileu foi acusado de heresia e de ser inspirado pelo demônio, porque vinha revelar uma lei da natureza, provando o erro de uma crença julgada inatacável, e, então, foi condenado e excomungado.

Se os Espíritos tivessem, sobre todos os pontos, abundado no sentido exclusivo da Igreja, se eles não proclamassem a liberdade de consciência e não condenassem certos abusos, teriam sido todos bem-vindos e não os qualificariam de demônios. Tal é também a razão por que todas as religiões, os muçulmanos como os católicos, crendo-se na posse exclusiva da verdade absoluta, olham como obra do demônio qualquer doutrina que não é inteiramente ortodoxa, do seu ponto de vista. Ora, os Espíritos vêm, não derribar a religião, mas, como Galileu, revelar-nos novas leis da natureza. Se alguns pontos de fé sofrem com isto, é porque, como na velha crença de girar o Sol ao redor da Terra, estão em contradição com essas leis. A questão está em saber se um artigo de fé pode anular uma lei natural, que é obra de Deus; e se, sendo essa lei reconhecida, não será mais racional adaptar a interpretação do dogma a ela, do que atribuí-la ao demônio.

Padre. — Deixemos a questão dos demônios; bem sei que ela é diversamente interpretada pelos teólogos; porém o sistema da reencarnação parece-me mais difícil de conciliar com os dogmas, pois que ele não é mais que a renovação da metempsicose de Pitágoras.

A. K. — Não é esta a ocasião própria de discutir uma questão que exige tão longos desenvolvimentos: vós a encontrareis tratada em O Livro dos Espíritos e no Evangelho segundo o Espiritismo ¹ ; não acrescentarei senão duas palavras.

Allan Kardec — O Que é o Espiritismo