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Terceiro diálogo. — O padre. (parte 8 de 10)

A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem nos animais, o que implica uma degradação. Demais, essa doutrina não era o que vulgarmente se crê. A transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana, mas como punição temporária; é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os corpos dos animais ferozes, para neles receberem castigos; as dos impudicos, os porcos e javalis; as dos inconstantes e estouvados, os das aves; as dos preguiçosos e ignorantes, os dos animais aquáticos. Depois de alguns milhares de anos, mais ou menos, conforme a culpabilidade, a alma, saindo dessa espécie de prisão, voltava à humanidade. A encarnação animal não era, pois, uma condição absoluta; ela, como se vê, aliava-se à encarnação humana, e a prova é que a punição dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres, expostas ao desprezo e às injúrias ² . Era uma espécie de espantalho para os simples, antes que um artigo de fé para os filósofos. Assim como dizemos às crianças: “Se fordes más, o lobo vos comerá”, os antigos diziam aos criminosos: “Vós vos tornareis em lobos”, e hoje se diz: “O diabo vos agarrará e levará para o inferno.”

A pluralidade das existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, em não admitir aquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda, mas progride sempre. Suas diferentes existências corpóreas se cumprem na humanidade, sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral; o que é coisa muito diversa da metempsicose.

Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência, muitas vezes abreviada por causas acidentais, Deus lhe permite continuar, em nova encarnação, o que ela não pôde acabar em outra, ou recomeçar o que fez errado. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos.

Quanto à questão de saber se a pluralidade das existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja, limito-me a dizer o seguinte:

Ou a reencarnação existe, ou não; se existe, é uma lei da natureza. Para provar que ela não existe, seria necessário demonstrar que vai de encontro, não aos dogmas, mas a essas leis, e que há outra mais clara e logicamente melhor que ela, explicando as questões que só ela pode resolver. Além disso, é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção racional, hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora, por falta de compreensão. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar; é o que pela força das coisas será feito mais tarde.

Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam perfeitamente livres, como ainda hoje o são, de crer que é o Sol que gira ao redor da Terra. A ideia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa rapidez, em razão de sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus. Quando ela for reconhecida como verdade natural e aceita por todos, que fará a Igreja?

Em resumo: a reencarnação não é um sistema imaginado para satisfação das necessidades de um ideal, nem uma opinião pessoal; é ou não um fato. Se está demonstrado que certos efeitos existentes são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitirmos que eles são a consequência desta ; logo, se está em a natureza, não pode ser anulada por uma opinião contrária.

Padre. — Segundo os Espíritos, quem não crê neles nem nas suas manifestações, deve ser menos aquinhoado na vida futura?

A. K. — Se esta crença fosse indispensável à salvação dos homens, que seria daqueles que, desde o começo do mundo, não tiveram possibilidade de possuí-la, bem como daqueles que, durante ainda muito tempo, morrerão sem tê-la? Poderá Deus cerrar-lhes as portas do futuro?

Não; os Espíritos que nos instruem não são assim tão pouco lógicos; eles nos dizem: Deus é soberanamente justo e bom, não faz a sorte futura do homem subordinar-se a condições alheias à vontade deste; eles não nos pregam que fora do Espiritismo não possa haver salvação , mas sim, como o Cristo: Fora da caridade não há salvação .

Padre. — Permiti-me, então, dizer-vos que, desde que os Espíritos só ensinam os princípios de moral encontrados no Evangelho, não vejo qual possa ser a utilidade do Espiritismo, visto como antes que este viesse e hoje, sem ser por ele, podíamos e podemos alcançar a salvação. Não seria o mesmo se os Espíritos viessem ensinar algumas grandes verdades novas, alguns desses princípios que mudam a face do mundo, como fez o Cristo. Ao menos o Cristo era só, sua doutrina era única, ao passo que os Espíritos se contam por milhares e se contradizem, uns dizendo que é branco o que outros afirmam ser negro; do que resulta que, já desde o começo, seus partidários formam muitas seitas. Não seria melhor deixarmos os Espíritos tranquilos e contentarmo-nos com o que já temos?

A. K. — Errais, meu amigo, em não sair do vosso ponto de vista e em considerar sempre a Igreja como o único critério dos conhecimentos humanos.

Allan Kardec — O Que é o Espiritismo