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Terceiro diálogo. — O padre. (parte 9 de 10)

Se o Cristo disse a verdade, o Espiritismo não podia dizer outra coisa, e em vez de por isso apedrejá-lo, deve-se acolhê-lo como poderoso auxiliar, que vem confirmar, por todas as vozes de além-túmulo, as verdades fundamentais da religião, combatidas pela incredulidade.

Que o materialismo o combata, explica-se facilmente; mas que a Igreja se ligue ao materialismo contra ele, é um fato menos concebível. Igualmente inconsequente é ela quando qualifica de demoníaco um ensino que se apoia sobre a mesma autoridade e que proclama a missão divina do fundador do Cristianismo.

O Cristo teria dito, teria revelado tudo? Não; visto que ele próprio disse: “Eu teria ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não podeis compreendê-las, é por isso que eu vos falo em parábolas.”

O Espiritismo vem hoje, época em que o homem está maduro para compreendê-lo, completar e explicar o que o Cristo propositadamente não fez senão tocar, ou não disse senão sob a forma alegórica. Direis, sem dúvida, que à Igreja competia dar essa explicação. Mas, qual delas? a romana, a grega ou a protestante? Como não estão elas de acordo, cada uma explicaria a seu modo e reivindicaria o privilégio de dar essa explicação. Qual delas conseguiria arrebanhar todos os dissidentes?

Deus, que é sábio, prevendo que os homens iriam nela enxertar suas paixões e prejuízos, não lhes quis confiar o cuidado desta nova revelação: deu-a aos Espíritos, seus mensageiros, que a proclamaram por todos os pontos do globo, fora dos limites particulares de qualquer culto, a fim de que ela possa aplicar-se a todos, e nenhum a transforme em objeto de exploração.

Por outro lado, os diversos cultos cristãos não se terão apartado em coisa alguma do caminho traçado pelo Cristo? Seus preceitos de moral serão escrupulosamente observados? Não se lhe têm desnaturado as palavras, a fim de que possam servir de apoio à ambição e às paixões humanas, quando elas lealmente condenam isso?

Ora, o Espiritismo, pela voz dos Espíritos enviados de Deus, vem chamar à estrita observância de seus preceitos, aqueles que dela se arredam; será por isso que o qualificam de obra satânica?

Vós vos iludis dando o nome de seitas a algumas divergências de opiniões relativas aos fenômenos espíritas. Não é de admirar que no começo de uma ciência, quando ainda as observações eram incompletas para muitos, tenham surgido teorias contraditórias; essas teorias, porém, repousam sobre pontos de minúcias e não sobre o princípio fundamental. Podem constituir escolas que expliquem certos fatos a seu modo, porém, não são seitas, como não o são os diferentes sistemas que dividem os sábios nas ciências exatas: em medicina, em física, etc. Riscai, pois, a palavra seita, que é imprópria ao nosso caso.

A quantas seitas não tem o Cristianismo dado nascimento, desde a sua origem? Por que não teve bastante poder a palavra do Cristo para impor silêncio a todas as controvérsias? Por que é ela suscetível de interpretações que ainda hoje dividem os cristãos em diferentes igrejas, pretendendo todas elas possuir exclusivamente a verdade necessária à salvação, detestando-se intimamente e anatematizando-se em nome do seu divino mestre, que não pregou senão o amor e a caridade?

Fraqueza dos homens, direis vós. Seja; então, como quereis que o Espiritismo triunfe subitamente dessa fraqueza, transforme a humanidade como por encanto?

Vamos à questão da utilidade. Dizeis que o Espiritismo nada revela de novo. É um erro: ele ensina, ao contrário, muito àqueles que não se limitam a um estudo superficial. Não fizesse ele mais que substituir a máxima: Fora da caridade não há salvação , que reúne os homens, àquela: Fora da Igreja não há salvação , que os divide, e a sua vida já marcaria uma nova era à humanidade.

Dissestes que se podia passar sem ele; concordo, como também se podia passar sem muitas das descobertas científicas. Os homens certamente viviam bem, antes da descoberta de todos os novos planetas, antes que se tivesse calculado os eclipses, antes que se conhecesse o mundo microscópico e cem outras coisas; o camponês para viver e fazer germinar o trigo, não tem necessidade de saber o que é um cometa, e, entretanto, ninguém nega que todas essas coisas alargam o círculo das ideias e nos fazem compreender melhor as leis da natureza.

Ora, o mundo dos Espíritos é uma dessas leis que o Espiritismo nos faz conhecer; ele nos ensina a influência que esse mundo exerce sobre o corpóreo. Suponhamos que a isso se limitasse a sua utilidade, já não seria muito a revelação de tal potência?

Vejamos, agora, a sua influência moral. Admitamos que ele nada ensine, sob este ponto de vista; qual o maior inimigo da religião? O materialismo, porque o materialista não crê em coisa alguma; ora, o Espiritismo é a negação do materialismo, que já não tem razão de ser. Não é mais pelo raciocínio, pela fé cega que se diz ao materialista que nem tudo se acaba com o corpo; é pelos fatos que se lhe mostram visíveis e palpáveis. Não será isso um pequeno serviço prestado à humanidade e à religião? Porém não é ainda tudo: a certeza da vida futura, o quadro vivo daqueles que nos precederam nela, mostram a necessidade do bem e as consequências inevitáveis do mal. Eis por que, sem ser uma religião, o Espiritismo se prende essencialmente às ideias religiosas, desenvolve-as naqueles que não as possuem, fortifica-as nos que as têm incertas.

Allan Kardec — O Que é o Espiritismo