“Não há efeito sem causa, e os efeitos mais vulgares podem conduzir-nos à solução dos mais difíceis problemas.
“Se Newton não tivesse prestado atenção à queda de uma maçã; se Galvani tivesse repelido sua serva e lhe chamasse visionária e louca, quando esta lhe falou das rãs que dançavam no prato, talvez ainda estivéssemos sem conhecer a admirável lei da gravitação universal e as fecundas propriedades da pilha elétrica.
“O fenômeno, burlescamente designado sob o nome de dança das mesas, não é mais ridículo que a dança das rãs, e talvez encerre alguns desses segredos da natureza, que, quando se tem a chave para explicá-los, revolucionam a humanidade.”
Eles disseram ainda:
“Já que tanta gente se ocupa com eles, e homens notáveis fizeram deles o objeto do seu estudo, é preciso que alguma coisa de verdade se encontre em tais fenômenos; uma ilusão, uma farsa, se o quiserem, não pode ter esse caráter de generalidade; seria divertimento para certo círculo, para certa sociedade, mas não daria a volta ao mundo.
“Guardemo-nos, pois, de negar a possibilidade do que não compreendemos, com receio de receber, mais cedo ou mais tarde, o desmentido que desabonaria nossa perspicácia.”
V. — Perfeitamente; eis aí um sábio raciocinando com sabedoria e prudência; e, sem ser sábio, eu penso igualmente; notai, porém, que ele nada afirma, mas duvida; ora, qual é a base em que se firma a crença na existência dos Espíritos e, sobretudo, na sua comunicação conosco?
A. K. — Essa crença apoia-se sobre o raciocínio e sobre os fatos. Eu próprio não a adotei senão depois de meticuloso exame. Tendo adquirido, no estudo das ciências exatas, o hábito das coisas positivas, sondei, perscrutei esta nova ciência nos seus mais íntimos refolhos; busquei explicar-me tudo, porque não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê.
Eis o raciocínio que me fazia um sábio médico, outrora incrédulo e hoje fervoroso adepto:
“Dizem que seres invisíveis se comunicam; por que negá-lo?
“Antes de inventar-se o microscópio, suspeitava alguém que existissem esses milhares de animálculos que causam tantos estragos à economia?
“Onde a impossibilidade material de haver no espaço seres que escapem aos nossos sentidos?
“Teremos, acaso, a ridícula pretensão de saber tudo, e de dizer que Deus nada mais nos pode revelar?
“Se esses seres invisíveis que nos rodeiam, são inteligentes, por que não poderão comunicar-se conosco? Se estão em relação com os homens, devem desempenhar um papel no seu destino, nos acontecimentos da vida destes. Quem sabe se eles não constituem uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas de que nem suspeitávamos?
“Que novo horizonte vai abrir-se ao pensamento! Que campo tão vasto de observação!
“A descoberta do mundo dos invisíveis tem muito mais alcance que a dos infinitamente pequenos; ela é mais que uma descoberta, é uma revolução nas ideias.
“Quanta luz pode projetar essa descoberta? Quantas coisas misteriosas explicadas?
“Os crentes são ridiculizados, mas que valor tem isso, quando o mesmo se tem dado a respeito de todas as grandes descobertas?
“Cristóvão Colombo não foi repelido, sobrecarregado de desgostos, tratado como insensato?
“São ideias tão estranhas, dizem, que não se lhes deve dar crédito; mas a isso se pode responder que data de meio século a possibilidade de, em alguns minutos, estabelecer-se correspondência entre dois pontos opostos do nosso planeta; em algumas horas, atravessar-se a França; com o vapor produzido por um pouco de água fervente, um navio avançar contra o vento; e tirarmos da água os meios de iluminar-nos e aquecer-nos.
“Quem, há meio século, se tivesse proposto iluminar toda a cidade de Paris em um instante e com um só reservatório de uma substância invisível, apenas conseguiria fazer rir de si.
“Será isso, porventura, coisa mais prodigiosa que o espaço ser povoado pelos seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, nela deixaram seu invólucro material?
“Não se achará neste fato a explicação de tantas crenças que existem desde os mais remotos tempos?
“São coisas que bem merecem estudo aprofundado.”
Eis as reflexões de um sábio, mas de um sábio sem pretensão; elas são igualmente feitas por muitos outros homens esclarecidos; estes viram, não superficialmente e de ânimo prevenido; estudaram seriamente, sem partido fixo, e tiveram a modéstia de não dizer: não compreendemos, isto não pode ser verdade. Sua convicção formou-se pela observação e pelo raciocínio. Se essas ideias fossem uma quimera, acreditais que todos esses homens sisudos as tivessem adotado? Que, por tanto tempo, pudessem ser vítimas de uma ilusão?
Não há, pois, impossibilidade material de existirem seres invisíveis para nós, povoando o espaço, e esta só consideração devia bastar para exigir mais circunspeção.
Quem, há bem pouco, poderia pensar que uma só gota de água límpida encerrasse milhares de seres, cuja pequenez extrema nos confunde a imaginação?
Ora, eu digo que há mais dificuldade em conceber a nossa razão seres de tal tenuidade, providos de todos os nossos órgãos e funcionando como nós, do que admitir aqueles a quem damos o nome de Espíritos.
V. — Sem dúvida, mas por ser uma coisa possível, não devemos concluir que exista.
Allan Kardec — O Que é o Espiritismo