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  4. Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam

Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam

Não basta que os incrédulos vejam para que se convençam

V. — O que os incrédulos desejam ver, pedem, e na maioria das vezes não se lhes fornece, são os fatos positivos. Se todos testemunhassem esses fatos, a dúvida não mais seria permitida. Como é que tanta gente, apesar de sua vontade, nada tem conseguido ver?

Apresentam-lhes como motivo, dizem eles, a sua falta de fé; ao que respondem, e com razão: que não podem ter fé antecipada e que se lhes deve dar os meios para poderem crer.

A. K. — É simples a razão. Eles querem que os fatos obedeçam à sua ordem e a Espíritos não se pode dar ordens; é preciso esperar pela boa-vontade deles.

Não basta dizer: Mostrai-me tal fato e eu crerei; é necessário ter-se a vontade de perseverar, deixar que os fatos se produzam espontaneamente, sem pretender forçá-los ou dirigi-los; aquele que mais desejais será, talvez, precisamente o que não obtereis; virão, porém, outros, e o que quereis se apresentará, quando menos o esperardes.

Aos olhos do observador atento e assíduo surgem eles inumeráveis, corroborando-se uns aos outros; mas quem acreditar que basta tocar a manivela, para fazer que a máquina ande, engana-se redondamente.

Que faz o naturalista quando quer estudar os hábitos de um animal? Mandá-lo-á fazer tal ou qual coisa, para com vagar observá-lo à sua vontade? Não; porque bem sabe que o animal não lhe obedecerá; mas espreita as manifestações espontâneas do instinto do animal; espera-as e colhe-as na passagem. O simples bom-senso mostra que, com mais forte razão, deve proceder-se do mesmo modo com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que as dos animais.

É erro crer que se exija fé antecipada de quem quer estudar; o que se exige é boa-fé, aliás coisa diversa; ora, há cépticos que negam até a evidência e aos quais os próprios prodígios não convenceriam.

Quantos deles, depois de haverem visto, não persistem ainda em explicar os fatos a seu modo, dizendo que o que viram nada prova? Essas pessoas só servem para trazer perturbação ao seio das reuniões, sem que elas mesmas lucrem coisa alguma; por isso, deixamo-las à margem, por não querermos com elas perder nosso tempo.

Muitos até ficariam incomodados, se se vissem forçados a crer, por terem de ferir seu amor-próprio com a confissão de se haverem enganado.

Que se pode responder a quem não vê por toda parte senão ilusão e charlatanismo? Nada; é melhor deixá-los tranquilos e dizerem tanto quanto quiserem, que nada viram, e, mesmo, que nada se pôde ou se quis mostrar-lhes.

Ao lado desses cépticos endurecidos estão os que querem ver a seu modo, que, tendo formado uma opinião, pretendem por ela explicar tudo; estes não compreendem que os fenômenos se possam dar contrariamente ao seu desejo; não sabem ou não querem colocar-se nas condições precisas para obtê-los.

Quem de boa-fé deseja observar deve, não digo crer sob palavra, mas abandonar toda ideia preconcebida e não querer comparar coisas incompatíveis; cumpre-lhe aguardar, seguir, observar com paciência infatigável; esta condição é também favorável aos que se tornam adeptos, pois que ela prova não haverem formado levianamente a sua convicção. Dispondes vós de tal paciência? Não, e direis: por falta de tempo. Então não vos ocupeis, não faleis mais nisso, pois ninguém a tal vos obriga.

Allan Kardec — O Que é o Espiritismo