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Médiuns interesseiros (parte 1 de 3)

Médiuns interesseiros

V. — Antes de empreender um estudo de longo fôlego, há muita gente que deseja ter certeza de que não vai perder o tempo, certeza que lhe poderia provir do fato concludente, mesmo obtido a peso de ouro.

A. K. — Aquele que não se quer dar ao trabalho de estudar, é antes guiado pela curiosidade, que pelo desejo real de se instruir; ora, os Espíritos, assim como eu, não gostam dos curiosos. Além disso, a cobiça é-lhes, sobretudo, antipática, e eles recusam-se a prestar-lhe qualquer serviço; crer que Espíritos superiores como Fénelon, Bossuet, Pascal, Santo Agostinho, se ponham às ordens do primeiro que os chame, a tanto por hora, é fazer ideia bem falsa das nossas relações com o mundo espiritual.

Não, senhor. As comunicações de além-túmulo são assunto muito grave e respeitabilíssimo para serem assim exibidas.

Sabemos que os fenômenos espíritas não se produzem como o movimento das rodas de um mecanismo, porquanto dependem da vontade dos Espíritos; mesmo admitindo-se que um indivíduo possua aptidão mediúnica, nada lhe garante obter uma manifestação em dado momento.

Se os incrédulos são inclinados a suspeitar da boa-fé dos médiuns em geral, muito pior seria se neles encontrassem o estímulo do interesse; com razão se poderia suspeitar que o médium retribuído simulasse quando o Espírito não o auxiliasse, pois que ele desejaria de qualquer forma ganhar dinheiro.

Além de que o desinteresse absoluto é a melhor garantia de sinceridade, repugnaria à razão evocar por dinheiro os Espíritos das pessoas que nos são caras, supondo que eles consintam nisso, o que é mais que duvidoso; em todos os casos só se prestariam a isso Espíritos de classe inferior, pouco escrupulosos a respeito de meios, e que não merecem confiança alguma; e estes mesmos, muitas vezes, encontram um divertimento maldoso em frustrar as combinações e os cálculos do seu evocador. A natureza da faculdade mediúnica opõe-se, pois, a que ela sirva de profissão, à vista de sua dependência de vontade estranha à do médium, e de lhe poder ela, no momento preciso, deixá-lo em falta, salvo se ele a suprir pela astúcia.

Porém, admitindo mesmo inteira boa-fé, desde que os fenômenos não se produzem à vontade, seria puro acaso se, em sessão paga, se produzisse exatamente aquele que desejávamos ver para nos convencermos.

Dai cem mil francos a um médium e não conseguireis que ele obtenha que os Espíritos façam o que não querem; essa dádiva, que viria desnaturar a intenção e transformá-la em violento desejo de lucro, seria antes um motivo para que ele fosse mal sucedido. Quando se está bem compenetrado desta verdade — que a afeição e a simpatia são os mais poderosos móveis de atração para os Espíritos —, não se pode deixar de compreender que não lhes agradam as solicitações de alguém que tenha a ideia de servir-se deles para ganhar dinheiro.

Aquele, pois, que precisa de fatos que o convençam, deve provar aos Espíritos sua boa-vontade por uma observação séria e paciente, se deseja ser auxiliado; pois se é uma verdade que a fé não se impõe, não o é menos, que se não pode comprá-la.

V. — Compreendo esse raciocínio do ponto de vista moral; entretanto, não é justo que aquele que emprega seu tempo, a bem da causa, não seja indenizado quando esse tempo é roubado ao trabalho de que precisa para viver?

A. K. — Primeiro: será mesmo no interesse da causa que ele o faz, ou no seu próprio?

Se ele deixou seu modo de vida, é porque não lhe satisfazia, e por esperar ganhar mais, em um novo, ou ter menos fadigas. Não há sacrifício algum no empregar o tempo em uma coisa de que se espera tirar lucro. É absolutamente o mesmo que se se dissesse ser no interesse da humanidade que o padeiro fabrica o pão. A mediunidade não é o único recurso; se ele não a tivesse, procuraria ganhar a vida de outro modo.

Os médiuns verdadeiramente sérios e devotados, quando não possuem uma existência independente, procuram recursos no trabalho ordinário e não abandonam suas profissões; eles não consagram à mediunidade senão o tempo que lhe podem dar, sem prejuízo de outras ocupações; empregando parte do tempo destinado aos divertimentos e repouso, nesse trabalho mais útil, eles se mostram devotados, tornam-se apreciados e respeitados.

A multiplicidade dos médiuns nas famílias torna, ao demais, inúteis os médiuns de profissão, ainda que estes ofereçam todas as garantias desejáveis, o que é muito raro.

Se não fosse o descrédito que acompanha esse gênero de exploração, para o que me felicito de muito haver concorrido, os médiuns mercenários pululariam e os jornais viriam sempre cheios de seus reclamos; ora, para um que fosse leal, apresentar-se-iam cem charlatães que, abusando de uma faculdade real ou simulada, fariam o maior dano ao Espiritismo.

É, pois, um princípio: todos quantos veem no Espiritismo coisa diferente de uma exibição de fenômenos curiosos, que compreendem e tomam a peito a dignidade, consideração e os verdadeiros interesses da doutrina, reprovam toda espécie de especulação, qualquer que seja a forma ou disfarce com que se apresente.

Os médiuns sérios e sinceros — e eu dou este nome aos que compreendem a santidade do mandato que Deus lhes confiou — evitam até as aparências do que poderia fazer pairar sobre eles a menor suspeita de cobiça; eles consideram uma injúria a acusação de tirarem qualquer lucro da sua faculdade.

Allan Kardec — O Que é o Espiritismo