Convinde, senhor, apesar de serdes incrédulo, que um médium nessas condições faria sobre vós uma impressão totalmente diversa da que sentiríeis, se lhe tivésseis pago para vê-lo trabalhar, ou, quando mesmo fosseis admitido por favor, se soubésseis que atrás de tudo aquilo havia uma questão de dinheiro; concordai que vendo-o antes animado de um verdadeiro sentimento religioso, estimulado pela fé somente e não pelo desejo do ganho, involuntariamente o respeito por ele se vos impunha; seja embora ele o mais humilde proletário, inspirar-vos-á mais confiança, porque não há motivo algum para suspeitardes da sua lealdade.
Pois bem! caro senhor, encontrareis mil como este, contra um que não esteja nas mesmas condições, e é esta uma das causas que mais têm concorrido para o crédito e propagação da doutrina; ao passo que, se ela só tivesse intérpretes interessados, não contaria a quarta parte dos adeptos que possui hoje.
É perfeitamente compreensível que os médiuns de profissão sejam excessivamente raros, pelo menos em França; eles são desconhecidos na maioria dos centros espíritas da província, onde a reputação de mercenários bastaria para que os excluíssem de todos os grupos sérios, e onde para eles o ofício não seria lucrativo, por causa do descrédito de que se tornariam objeto e da concorrência de médiuns desinteressados, que se encontram por toda parte.
Para suprir, seja a faculdade que lhes falta, seja a insuficiência da clientela, há falsos médiuns que tudo aproveitam, servindo-se das cartas, da clara de ovo, da borra de café, etc., a fim de contentar a todos os gostos, esperando por esse meio, na falta de Espíritos, atrair os que ainda creem nessas tolices.
Se eles unicamente a si prejudicassem, o mal não seria grande; porém, há pessoas que, sem nada aprofundarem, confundem o abuso com a realidade, e disso se aproveitam os mal-intencionados, para dizer que é nisso que consiste o Espiritismo. Já vedes, pois, senhor, que se a exploração da mediunidade conduz a cometer abusos prejudiciais à doutrina, o Espiritismo sério tem razão de não aceitá-la, de repelir o seu auxílio.
V. — Tudo isso é muito lógico, concordo, mas os médiuns desinteressados não se acham ao dispor de qualquer e sentimo-nos constrangidos de incomodá-los; escrúpulos que não nos embaraçam, quando buscamos aquele que recebe uma paga, convencido de que não lhe vamos roubar o tempo. Muita gente que se deseja convencer, acharia muito mais facilidade se existissem médiuns públicos .
A. K. — Se os médiuns públicos, como lhes chamais, não oferecem as garantias precisas, como poderiam ser úteis para levar alguém à convicção? O inconveniente que assinalais, não destrói os de muito mais gravidade, que vos citei.
Buscá-los-iam antes como divertimento, para ouvir a buena-dicha, do que como meio de instrução. Aquele que, seriamente, deseja convencer-se encontra os meios, mais tarde ou mais cedo, se tiver perseverança e boa-vontade; porém, quando não se está preparado para tal, não é por assistir a uma sessão que se ficará convencido.
Prova a experiência que, por se trazer dessas sessões uma impressão desfavorável, sai-se menos disposto à convicção, e talvez sem vontade alguma de prosseguir num estudo em que nada se viu de sério.
Ao lado, porém, das considerações morais, os progressos da ciência espírita, fazendo-nos melhor conhecer as condições em que se produzem as manifestações, mostram-nos, hoje, a dificuldade material que se apresenta à sua produção, coisa de que ninguém a princípio suspeitava: a necessidade de afinidades fluídicas entre o Espírito evocado e o médium.
Ponho de lado todo pensamento de fraude e embuste, e suponho que exista a mais completa lealdade.
Para que um médium de profissão possa oferecer toda segurança às pessoas que o venham consultar, é necessário que ele possua uma faculdade permanente universal, isto é, que ele se possa comunicar facilmente com qualquer Espírito e a todo momento, para estar constantemente à disposição do público, como um médico, e satisfazer a todas as evocações que lhe sejam pedidas; ora, isto é o que não se encontra em médium algum, seja entre os desinteressados, seja entre os outros, e isto por causas independentes da vontade do Espírito, o que não posso desenvolver aqui, porque não estou fazendo um curso de Espiritismo.
Limito-me a dizer-vos que as afinidades fluídicas, princípio do qual dimanam as faculdades mediúnicas, são individuais e não gerais , podendo existir do médium para tal Espírito, e não para tal outro; que, sem essas afinidades, cujas variantes são múltiplas, as comunicações são incompletas, falsas ou impossíveis; que, as mais das vezes, a assimilação fluídica entre o Espírito e o médium só se estabelece depois de algum tempo, ou somente uma vez em dez acontece que ela seja completa desde a primeira vez.
A mediunidade, como vedes, cavalheiro, é subordinada a leis, de alguma sorte orgânicas, às quais todo médium está sujeito; ora, não se pode negar que isto é um obstáculo para a mediunidade de profissão, pois que a possibilidade e a exatidão das comunicações são um produto de causas que não dependem do médium nem do Espírito. (Ver abaixo, no cap. II, o parágrafo dos médiuns .)
Allan Kardec — O Que é o Espiritismo